Ao tratar de educar o desejo e a vocação para o ser mais, Marlon - baseando-se no pensamento do pedagogo Paulo Freire - lembra que o ser humano, ao desejar o infinito, o ilimitado, tem consciência de sua incompletude. E é justamente nesta incompletude humana que encontramos o núcleo fundamental da educação humana. É tendo consciência de que é um ser inacabado que o ser humano busca o conhecimento. Sentindo-se incompleto o ser humano também busca a sua plenitude. Este desejo de transcender (conhecer mais) é o que leva o ser humano ao processo da educação. Pois, para Freire, o que faz com que o ser humano permaneça sempre em processo de busca é a consciência humana de que somos seres inacabados. Ser mais faz parte da vocação humana e é o que faz nascer em nós a capacidade de nos compreendermos.
O ser humano também é dotado de natureza crítica, e quando suas questões deixam de ser respondidas gera-se a inquietude humana. E é a inquietude humana que o faz transcender para alguma direção. Criticidade e esperança caminham juntas. Uma não é maior do que a outra. Com base no pensamento de Freire pode-se dizer que, frente às dificuldades da vida, uma das principais funções da educação é dar condições de promover a consciência para transcender qualquer tipo de realidade desumanizante. E é compromisso da educação conscientizar-nos da capacidade de transcender essa realidade, reinventado o mundo sem necessariamente repeti-lo ou reproduzi-lo. Tornamos-nos educáveis porque compreendemos que é possível lutar para transformar a realidade injusta.
Para Freire, aprender é uma paixão fundamental para o ser humano. E o desejo é o elemento básico do sujeito que aprende. Nesta perspectiva vale destacar que há uma íntima relação entre desejo, prazer e aprendizagem. A vocação humana para ser mais se estabelece justamente nas tensões existentes nessa dinâmica dialética da incompletude e do desejo humano.
Para a nossa sociedade pós-moderna a esperança é algo indispensável à existência. Já para Paulo Freire a esperança é algo ativo e fundamental para o ser humano, que é maior do que a realidade e as circunstâncias que lhes são impostas. A matriz da esperança é a consciência do ser humano de saber-se inacabado. Nesta perspectiva a educação é para Freire um permanente processo de busca que tem como fundamento a esperança.
Freire acredita que para a educação humana não basta apenas a formação técnica e científica. É preciso também o sonho, a utopia. Pois, a esperança é vital para a existência humana. Sem esperança, não vamos a lugar algum. Mesmo diante das dificuldades da vida, manter a esperança é condição necessária para a hominização. Todavia, esperança na libertação ainda não é libertação, é preciso lutar pela libertação. O discurso neoliberal que recusava a utopia, os sonhos, foi denunciado por Freire. Para ele, a tarefa do educador é desvelar as possibilidades para a esperança, o sentido maior de lutarmos.
A educação precisa tratar de uma esperança crítica que impulsione o ser humano a superar a realidade que vive. Nesse sentido perceberemos a educação como algo dinâmico e criativo. A educação precisa ser sempre repensada e reinventada. Ela deve pensar a formação do ser humano de forma integral, ou seja, precisa atingir o ser humano em várias dimensões. Dessa forma a educação nos ajudará a vislumbrar o sentido das coisas dentro de um projeto de vida. Assim a esperança colabora para que a educação dê sentido à vida.
Educação também tem a ver com relacionamento e afetividade. Freire, por seu exemplo de vida, foi um ser humano de profundas relações. Para ele o amor é a forte base que liga e mantém unido os vínculos afetivos. Assim como a utopia é indispensável à vida humana igualmente o é o amor. Não há educação sem amor. Um amor capaz de amar os seres inacabados, com todas as pessoas que socialmente estão desprovidas de cuidados e atenção.
Dotado de conhecimento de textos da Palavra de Deus, Freire nos recorda a importância do amor altruísta. Um amor que deixa de lado todo o medo de amar. Um amor que possibilita a transcendência humana. Pois, sem amor não há transcendência nem profunda educação. A transcendência, assim como o processo de educar, se dá no encontro do outro.
Contemplar na educação apenas o conhecimento cognitivo do aluno deixa grandes lacunas ao longo da vida adulta. É importante lembrar que a educação é lugar para o convívio e o amadurecimento afetivo. A afetividade (manifestada no carinho, toque...) rompe barreiras. Por isso, é função do educador criar um ambiente favorável onde o educando possa manifestar e expressar suas emoções.
Francisco Geovani Leite
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